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quinta-feira, 5 de março de 2009

AMOR


Enganar-se a respeito da natureza do amor é a mais espantosa das perdas. É uma perda eterna, para a qual não existe compensação nem no tempo nem na eternidade: a privação mais horrorosa, que não é possível recuperar nem nesta vida... nem na futura!

(Soren Kierkegaard)

Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos.

(Santo Agostinho)

O amor é uma actividade, não um afecto passivo; é um acto de firmeza, não de fraqueza...é propriamente dar, e não receber.

(Erich Fromm)

Amor e desejo são coisas diferentes. Nem tudo o que se ama se deseja e nem tudo o que se deseja se ama.

(Miguel Cervantes)


AMOR REAL

Apesar do tempo, da chuva, do frio,
Ainda é aquele amor que procura espaço
Que é machucado, que fere e se vinga

O tempo passa, mais o sentimento permanece
Porque é eterno
É eterna a mágoa, a dúvida, a dor, a solidão
De um amor que buscou incansavelmente o seu par
De todas as maneiras e a qualquer custo


Que aceitava
Que compreendia
Que queria
Que esquecia

É real um amor que pretende ser verde.


Marlene

terça-feira, 3 de março de 2009

VERSOS ÍNTIMOS


Simplesmente magnífico! Um dos meus poemas preferidos. "Versos Íntimos" do sensacional Augusto dos Anjos; fala por sí só. É preciso apenas refletir.


Versos Íntimos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


Augusto dos Anjos


Esses são “Versos Íntimos”, escritos em 1906 pelo poeta Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, a compor um dos mais declamados trabalhos deste enigmático discípulo de Baudelaire, cuja breve vida esteve marcada por um intenso questionamento filosófico, disseminado por toda a sua obra."Versos Íntimos" foi incluído no livro "Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século", organizado por Ítalo Moriconipara a Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2001, pág. 61Augusto dos Anjos: O Poeta da Espiritualidade Referendado como o poeta da morte, dos cemitérios, dos ossos e da carne em putrefação, Augusto dos Anjos, ao contrário do que muitos imaginam, segreda em sua obra poética uma filosofia libertária, capaz de nos guiar pela senda da mais pura transcendência."Versos Íntimos” expõem, de modo formal e cruel, a nossa efêmera condição, fadados que estamos a nos prostrar na lama sepulcral, não sem antes experimentarmos toda a sorte desofrimentos advindos do relacionamento humano. Só mesmo a perfeição faria toda a filosofia de Hobbes, a considerar o homem lobo do próprio homem, caber assim metrificada nos 14versos (geralmente dois quartetos e dois tercetos)decassílabos heróicos (a 6ª e a 10ª sílabas são tônicas), de um único soneto. O poeta observa laconicamente o definhar denossos sonhos, lembra-nos a todos de que a ingratidão é o presente natural que nossas mãos estão acostumadas a receberpor toda a vida. Ele nos adverte acerca das traições a que estamos sempre sujeitos e, por isso, considera inútilqualquer espécie de remorso que possamos sentir esboçar-se em nosso peito. São versos realistas, eivados de um pessimismo desconcertante, a reproduzir o comportamento da sociedade hipócrita à qual estamos condenados desde o nascimento Por dizer verdades como essas, Augusto dos Anjos pagou seu preço. Sua poesia, considerada por muitos impressionista,não agrada à maioria, posto que seus versos rasgam as principais feridas da natureza humana, não acostumada a falar da morte sem estremecer, pouco disposta a observar os erros de sua maneira absurdamente competitiva de viver.Entretanto, se nos detivermos mais serenamente sobre sua obra, encontraremos – não obstante os termos difíceis poronde esbanja o cientificismo – toda uma mística que lhe serve de arcabouço, inequívoca função compensatória para o pessimismo declarado do poeta, sempre a questionar severamente o sentido de nossas vidas. Em alguns de seus sonetos e outras partes não tão popularizadas de seus versos, de paramo-nos com um caráter filosófico ocultista absolutamente singular em toda a literatura brasileira. O poeta apresenta genuínas reflexões à moda esotérica, em versos sublimados por uma religiosidade espiritualista,voltados para a libertação e transcendência da nossa alma,que, no mais das vezes, vive atormentada.

FLORBELA ESPANCA



O primeiro soneto que eu li de Florbela, foi na faculdade de Letras, eu cursava a UFRJ. Eu fiquei um tempo inerte na frente daquele soneto absorta e maravilha e o decorei se chamava “Os Versos Que Te Fiz” e nunca mais pude esquecer Florbela. O sofrer por amar, o lirismo tendencioso a dor de amar intensamente...tudo isso é lindo demais...

Um pouco de Florbela Spanca a grande poeta (poetiza) Portuguesa




Nascida em Vila Viçosa, a 8 Dezembro de 1894, batizada com nome de Flor Bela Lobo.
Em Outubro de 1899, Florbela começa a freqüentar o ensino pré-primário, passando a assinar Flor d'Alma da Conceição Spanca,
algumas vezes, opta por Flor, e outras, por Bela.
Escreve sua primeira poesia com apenas oito anos,
em novembro de 1903, " A Vida e a Morte".
Mostrando uma admirável precocidade e anunciando, desde já, a opção por temas que, mais tarde, virá a abordar de forma mais complexificada.
Em 1907, Florbela aponta os primeiros sinais de neurastenia, doença que a acompanha, até os últimos dias de vida e escreve o seu primeiro conto, "Mamã!". Em 1908, Antónia Lobo, a mãe de Florbela morre vítima de neurose, após o que a família se desloca para Évora, para Florbela prosseguir os seus estudos no Liceu André Gouveia, com o chamado Curso Geral do Liceu, cuja sexta classe (próxima do 10º ano atual) completa em 1912.
Florbela reata o namoro com Alberto Moutinho e, a 8 de Dezembro, uma vez emancipada, casa com ele, pelo civil, aos 19 anos.
Em 1914 Florbela recita numa festa do colégio, pela primeira vez, versos seus em público.
Em 1917, conclui o curso liceal, em Évora, matriculando-se em seguida na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. No mesmo ano, publica Livro de Mágoas, o primeiro livro de poemas. Seguem-se Livro de Sóror Saudade, em 1923 e, postumamente, Charneca em Flor e o livro de contos As Máscaras do Destino (1931).
Casada várias vezes, sendo infelizes em todos elas.
Sofria de várias doenças e fobias. Embora também tenha escrito em prosa, Florbela Espanca é conhecida sobretudo pelos seus sonetos, os quais têm sido objeto de sucessivas edições. Prolongando o gosto finissecular, a obra de Florbela acentua a nota pessimista e a atitude de sofrimento inerente à condição do Poeta
Suicida-se a 8 de Dezembro, em Matosinhos, dia do nascimento e do primeiro casamento, cerca das duas horas, com dois frascos de Veronal.
A poetiza só veio a ser conhecida depois de sua morte...






OS VERSOS QUE TE FIZ
Florbela Espanca

Deixe dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Tem dolencia de veludo caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !

Mas, meu Amor, eu não te digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !

Amo-te tanto ! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz

"FANATISMO"

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim.

"SE TU VIESSES VER-ME"

A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...
Quando me lembra:
esse sabor que tinha a tua boca...
o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte...
os teus abraços...
Os teus beijos...
a tua mão na minha...
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti..

"SILÊNCIO!"

No fadário que é meu, neste penar,
Noite alta, noite escura, noite morta,
Sou o vento que geme e quer entrar,
Sou o vento que vai bater-te à porta...

Vivo longe de ti, mas que me importa?
Se eu já não vivo em mim! Ando a vaguear
Em roda à tua casa, a procurar
Beber-te a voz, apaixonada, absorta!

Estou junto de ti, e não me vês...
Quantas vezes no livro que tu lês
Meu olhar se pousou e se perdeu!

Trago-te como um filho nos meus braços!
E na tua casa... Escuta!... Uns leves passos...
Silêncio, meu Amor!... Abre! Sou eu!...

Florbela Espanca


Vou colocar aqui, o Comentário da Dorinha 9 (Dorinha
Apalhão) Uma de minhas amigas portuguesas, do Cybercook
que eu admiro e é querida para mim. Uma jóvem mamãe culta,
inteligente e sensível.

Comentário de Dorinha:
"Acho lindo o poema "se tu viesses
ver-me" mas o meu poema preferido de
florbela Espanca é "ser poeta". Um
cantor portugues chamado Luis Represas
canta este poema lindamente, vc já
ouviu?"

SER POETA:

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens!
Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

(Florbela Espanca, «Charneca em Flor»,
in «Poesia Completa»)






Comentários de Minhas Amigas:

Helia disse...
Miga, eu tenho essa musica. Linda, terna...romantica como os portugueses sabem ser. Mais uma coisa em comum..rsss
bjoooo
11 de Fevereiro de 2009 11:59

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A MÃO ARRANCA DA TERRA A RAIZ


Eu sempre gostei de poesias. Desde os meus 12 anos escrevo, mas nunca levei muito á sério para seguir para seguir carreira, mesmo tendo me formado em letras português- grego, pela UFRJ. Esse foi uma redação que eu fiz no último de escola, quando eu tinha 17 anos.


A MÃO ARRANCA DA TERRA A RAIZ

É com as mãos que o homem planta
O fruto para sua existência
É com as mãos que o homem agradece á Deus
E também é com elas que
Pede proteção e um futuro melhor

A mão é primeiro contato
Da criança com a mãe
A mão segura e protege um
Pequenino ser do massacre no mundo

A mão aponta o caminho do bem
E envolve com ternura e ódio um ser amado
A mão é sensível, misteriosa e enigmática

Existem mãos artísticas
Mãos podem ser venenosas
As mãos podem falar
Fazer sombras na parede

A mão se torna mais dolorosa
Quando acena na despedida
E mais contente
Quando abraça um irmão

A mão é simplesmente a mão
Mas sem ela quase nada
Ou talvez nada poderia ser feito

A mão segura o mundo
As mãos são o centro do corpo
A mão é um ser isolado
As mãos preenchem um vazio omérico
A mão é necessária á vida.

Marlene Fonseca Ferreira,


MÃOS EM ROSTO AFAGANDO

Um gesto, um chamamento
De enfado, de ternura
De oração, de sentimento
De prazer, de loucura
De um beijo que se envia
De um obstáculo que se desvia

Mãos em rosto afagando
Mãos lisas, mãos enrugadas
Mãos feridas, encarquilhadas
Mãos ao alto, implorando,
Mãos no peito batendo
Mãos puras e belas
Mãos por alguém sofrendo
Mãos de muitas quimeras
Mãos que amam
Mãos que se estendem
Mãos que embalam
Mãos que se vendem
Mãos de irmãos
Mãos sem idade
Mãos que são mãos
São mãos de AMIZADE!


COMENTÁRIOS DE MINHAS AMIGAS DO CYBERCOOK:

Tati queiroz (26/09/2007 22:59:14)

Nossa tudo em seu blog é maravilhoso vc tem
mãos de fada para tudo,
parabéns minha amiga..........
vc está dentro do meu coração!!!!!!!!!!!
bjs com muito carinho

Tia Cida (26/09/2007 15:07:15)

Marlene, minha amiga!!

Adoro poesias!!
Você é uma poetisa nata!! PARABÉNS!!

Tia Cida

Dorinha9 (23/09/2007 14:11:45)

Você é uma pessoa cheia de dons! Abençoada
mesmo. Tem talento para a cozinha e também
para as letras! os meus parabéns!

ZIZA (22/09/2007 20:22:14)

Maravilhoso!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
bjs.

Simplesmente Mariza disse...

Marlene, escrever uma poesia é algo sublime, são poucas as pessoas que tem este dom. Existe uma diferença entre pensar coisas sublimes e colocar no papel o teu pensamento, e mais difícil ainda é expor teus pensamentos à opinião de outros. Amiga e tu podes sim...tens toda a sensibilidade e a delicadeza de uma pessoa que tem este dom. Eu amo poesia. Se aos 17 anos escrevestes estas poesias, imagino que tenhas mais ...reúna todas e o resto tu sabes o que deves fazer. Mais uma coisa linda que descubro em ti amiga.
17 de Fevereiro de 2009 15:00

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

ODE AO GATO


Eros o meu gatão amado; meu companheiro de pc...folgado demais ah isso é verdade, mas a mamãe adora!


Eros chocando rsrs Não parece um galinhão?


Nessa minha primeira postagem, eu resolvi falar de uma das minhas maiores paixões GATOS.


Gato foi na minha infância e adolescência um animal proibido. Minha mãe tinha fobia a gatos, e desde pequena,cresci ouvindo as piores coisas sobre os bichanos. "Gato é traiçoeiro, não gosta do dono, gosta da casa, é arisco e perigoso, transmite asma, causa alergias, mata bebês com ciúmes dos donos, é animal de bruxas". Se fosse preto então...dá má sorte, traz azar...e por aí em diante. Então eu e meus irmãos tínhamos o gato como animal “non grato” e perigoso. Minha mãe era teatral e tão grande era sua cisma com gatos; que presenciei (hoje hilária, mas na época terrível) a cena terrível e assustadora, de um gato entrar no restaurante onde nós, eu meu pai,minha mãe, irmãos e alguns parentes, estávamos almoçando, e minha mãe, subiu em cima da mesa gritando “tira essa bicho daqui” e teve que ser acalmada com água com açúcar. Meu pai sofria calado com sua paixão felina; o gato sempre foi seu animal preferido e quando criança ele morava num Sítio no interior do Ceará na Serra de Baturité, chegou a criar 22 gatos; pasmem! E só mais crescida eu fui saber disso. Morei um tempo também no interior e logo quis criar um cachorro. Na época meu ex marido me fez uma surpresa; chegou em casa, com uma caixinha embrulhada em papel de presente, mas toda furadinha e me entregou sem nada dizer. Eu estranhei sem entender que o que fosse que estivesse dentro da caixa era pequeno demais, mas estava vivo! Quando eu abri a caixa, foi paixão a primeira vista; um casal de gatinhos siameses com menos de dois meses de idade, saltou para o meu colo miando e me olhando com aqueles lindos olhinhos azuis. Minha paixão por esses bichinhos fofos desde então, foi só crescendo tanto; que até hoje eu tenho sempre dois siameses ao meu lado; mesmo que ame também as outras raças e todos os tipos de gatos. Então quando li essa crônica do Arthur da Távola, logo identifiquei o misto de sentimentos tão profundos que me ligam à essas animais maravilhosos.
E para expressar com exatidão o que significa; só mesmo esta cronica do Artur da távola.


ODE AO GATO:

Bichos polêmicos sem o querer, porque sábios, mas inquietantes, talvez por isso. Nada é mais incômodo que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece. O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias do amor. Só as saudáveis. Lembrei, então, de dizer, dos gatos, o que a observação de alguns anos me deu. Quem sabe, talvez, ocorra o milagre de iluminar um coração a eles fechado? Quem sabe, entendendo-os melhor, estabelece-se um grau de compreensão, uma possibilidade de luz e vida onde há ódio e temor? Quem sabe São Francisco de Assis não está por trás do MagoMerlin, soprando-me o artigo? Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança a valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. Gato não. Ele só aceita uma relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de arrogante, egoísta, safado, espertalhão ou falso. "Falso", porque não aceita a nossa falsidade com ele e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e ele o dá se quiser. O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é espelho. O gato é zen. O gato é Tao. Eleconhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer. Exigente com quem ama, mas só depois de muito certificar-se. Não pede amor, mas se lhe dá, então ele exige. Sim, o gato não pede amor. Nem depende dele. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano mas se comporta como um lorde inglês.Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça, porque representa essa relação precária do homem com o (próprio) mistério. O gato não se relaciona com a aparência do homem. Ele vê além, por dentro e pelo avesso. Relaciona-se com a essência. Se o gesto de carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas existentes) impulsos secretos de agressão,o gato sabe. E se defende do afago. A relação dele é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso , quando surge nele um ato de entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é algo muito verdadeiro, que não pode ser desdenhado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe, pois significa um julgamento. O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (ele que enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente que nós). Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, ele se afasta. Nada diz, não reclama. Afasta-se. Quem não o sabe "ler" pensa que "ele não está ali. Presente ou ausente, ele ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, ele está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir. O gato vê mais e vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba perceber. Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio monge, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, já conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante , à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade e de novas inter-relações, infinitas, entre as coisas. O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhososos irritam. Tudo o que precise de promoção ou explicação,quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. Ninguém em toda natureza aprendeu a bastar-se(até na higiene) a si mesmo como o gato!Lição de sono e de musculação, o gato nos ensina todas as posições de respiração ioga. Ensina a dormir com entrega total e diluição recuperante no Cosmos. Ensina a espreguiçar-se coma massagem mais completa em todos em todos os músculos, preparando-os para a ação imediata. Se os preparadores físicos aprendessem o aquecimento do gato, os jogadores reservas não levariam tanto tempo (quase 15 minutos) se aquecendo para entrar em campo. O gato sai do sono para o máximo de ação, tensão e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso e milimétrico de cada parte do seu corpo,a qual ama e preserva como a um templo. Lição de saúde sexual e sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias. Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal. Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho muscular. Lição de salto. Lição de silêncio.Lição de descanso. Lição de introversão. Lição de contato com o mistério, com o escuro, com a sombra. Lição de religiosidade sem ícones. Lição de alimentação e requinte.Lição de bom gosto e senso de oportunidade. Lição de vida,enfim, a mais completa, diária, silenciosa, educada, sem cobranças, sem veemências, sem exigências. O gato é uma chance de interiorização e sabedoria posta pelo mistério à disposição do homem.

Artur da Távola



Diana é o xodó do pai dela. Felina e mística demais. Diana é atenta e toma da casa como uma sentinela. Ela é linda demais!

COMENTÁRIOS DE MINHAS AMIGAS:

Nena disse...
Bela postagem amiga, complementada com a do Artur da Távola. Não conhecia todas essas sutilezas do gato. Como sempre vc me ensinando.
bjos estrelados.

4 de Outubro de 2008 23:21

Bem Vindos-2530