segunda-feira, 15 de junho de 2009

CÂNTIGO NEGRO



Nesse show a Bethânia aqui no Rio de Janeiro, declama um dos textos mais emocionantes que ouvi. Minha mãe sempre colocava o vinil e eu nunca esqueci tanto que tenho decorado palavra por palavra até hoje dentro de minha cabeça. Essa postagem estou oferecendo para Camila do blog FINGINDO MEIGUICE.
Pra ti camila um Xero!

CÂNTIGO NEGRO

Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

Autores L. Carlos Lacerda, Clarice Lispector, Jose Regio, Vinícius de Moraes
Maria Bethânia- Álbum Nossos Momentos -1982


COMENTÁRIOS DAS AMIGAS:

Camilla Angelo disse...
Obrigada amiga
adorei a homenagem
visitarei sempre seu blog
vc hj se tornou uma pessoa especial pra mim
bjao
22 de Março de 2009 13:14

maria rosa disse... ¡Namasté Marlene!
Maravilloso Cantiga Negro y no menos maravillosa Maria Bethania.
Te sigo por dondequiera que vayas, polvo de estrella.
Gracias y beijos
23 de Março de 2009 05:37